Anicca

Série fotográfica por Carla Padilha

Abertura

Tudo o que nasce em nós já aprende a partir;
o instante é a dança da forma que se desfaz.

Sobre a obra

Anicca mergulha no princípio budista da impermanência ontológica: a compreensão de que nenhum estado físico, mental ou emocional permanece imutável. Através de sobreposições temporais, longas exposições e camadas translúcidas de movimento capturadas na própria câmera, o ensaio investiga a dissolução da identidade fixa, revelando a multiplicidade dos eus que habitam uma única respiração.

A matéria corpórea — gravada na pele pela própria palavra Anicca tatuada no colo — contrasta com a névoa dos gestos desdobrados. Da neutralidade fria do estúdio à ebulição cromática dos tons carmim e sombras azuis, a luz atua não como mera reveladora de formas, mas como fluxo temporal que fragmenta, expande e silencia. As mãos que cobrem e revelam tornam-se véus de transição entre o que insiste em ficar e o que se liberta no vazio.

Convida-se o espectador a não procurar um rosto estático, mas a contemplar o rastro: testemunhar a beleza intrínseca daquilo que passa, transmuta e repousa no silêncio do impermanente.

Ato I — A multiplicação do ser e a matéria

Ergo os olhos para o tempo e descubro que não sou apenas uma.

Fecho as pálpebras para conter o sopro que me divide em ecos.

O verbo se fez carne e a carne aceitou ser vento: aqui principia o fluxo.

— A forma primeira nunca permanece a mesma.

Ato II — O espaço, o tempo e a ebulição da cor

Onde a sombra era fria, a luz vermelha inflama o que ainda não partiu.

Inclinar o pescoço é ceder ao peso suave de existir apenas agora.

Tento conter meu rosto nas mãos, mas os dedos são grades de ar.

— Nenhum contorno resiste à passagem da própria luz.

Ato III — A presença, a fenda e a vibração

Dez mãos não bastam para reter o instante que já se esvai.

Há uma metade de mim que já pertence à ausência.

— O silêncio do espaço acolhe tudo o que transborda.

Ato IV — A dissolução, o rastro e o repouso

Cessam as vozes sobrepostas; resta a quietude de ser passagem.

A única certeza gravada no peito é que tudo flui e nada se apega.

E no final do rastro, o rosto volta a ser apenas uma respiração pura.

Sabendo que o corpo é como a espuma, e compreendendo a sua natureza de miragem, rompem-se as ilusões para habitar a paz do transitório.

Epílogo

Tudo o que nasce em nós já aprende a partir;
o instante é a dança da forma que se desfaz.

Fotografia e direção por Carla Padilha

Modelo: Gabriela

Ano de realização: 2025

Técnica: Fotografia digital, exposição múltipla / longa exposição em estúdio com luz mista