Abertura
Tudo o que nasce em nós já aprende a partir;
o instante é a dança da
forma que se desfaz.
Sobre a obra
Anicca mergulha no princípio budista da impermanência
ontológica: a compreensão de que nenhum estado físico, mental ou
emocional permanece imutável. Através de sobreposições temporais,
longas exposições e camadas translúcidas de movimento capturadas na
própria câmera, o ensaio investiga a dissolução da identidade fixa,
revelando a multiplicidade dos eus que habitam uma única
respiração.
A matéria corpórea — gravada na pele pela própria palavra Anicca
tatuada no colo — contrasta com a névoa dos gestos desdobrados. Da
neutralidade fria do estúdio à ebulição cromática dos tons carmim e
sombras azuis, a luz atua não como mera reveladora de formas, mas como
fluxo temporal que fragmenta, expande e silencia. As mãos que cobrem e
revelam tornam-se véus de transição entre o que insiste em ficar e o
que se liberta no vazio.
Convida-se o espectador a não procurar um rosto estático, mas a contemplar o rastro: testemunhar a beleza intrínseca daquilo que passa, transmuta e repousa no silêncio do impermanente.
Ato I — A multiplicação do ser e a matéria
Ergo os olhos para o tempo e descubro que não sou apenas uma.
Fecho as pálpebras para conter o sopro que me divide em ecos.
O verbo se fez carne e a carne aceitou ser vento: aqui principia o fluxo.
— A forma primeira nunca permanece a mesma.
Ato II — O espaço, o tempo e a ebulição da cor
Onde a sombra era fria, a luz vermelha inflama o que ainda não partiu.
Inclinar o pescoço é ceder ao peso suave de existir apenas agora.
Tento conter meu rosto nas mãos, mas os dedos são grades de ar.
— Nenhum contorno resiste à passagem da própria luz.
Ato III — A presença, a fenda e a vibração
Dez mãos não bastam para reter o instante que já se esvai.
Há uma metade de mim que já pertence à ausência.
— O silêncio do espaço acolhe tudo o que transborda.
Ato IV — A dissolução, o rastro e o repouso
Cessam as vozes sobrepostas; resta a quietude de ser passagem.
A única certeza gravada no peito é que tudo flui e nada se apega.
E no final do rastro, o rosto volta a ser apenas uma respiração pura.
Sabendo que o corpo é como a espuma, e compreendendo a sua natureza de miragem, rompem-se as ilusões para habitar a paz do transitório.
Epílogo
Tudo o que nasce em nós já aprende a partir;
o instante é a dança da
forma que se desfaz.
Fotografia e direção por Carla Padilha
Modelo: Gabriela
Ano de realização: 2025
Técnica: Fotografia digital, exposição múltipla / longa exposição em estúdio com luz mista